ELEIÇÕES 2020

Contra covid, indígenas exigem quarentena de mesários e ameaçam vetar urnas

Desde o início da pandemia, as quatro aldeias da região cumprem rigoroso isolamento social.

11/11/2020 16h59 | Atualizada em 30/11/-0001 00h00 1 comentario

Contra covid, indígenas exigem quarentena de mesários e ameaçam vetar urnas

ISA

Com cerca de 200 eleitores, o povo indígena Kisêdjê, no município de Querência, em Mato Grosso, ameaça impedir a instalação de urnas de votação nas aldeias do Território Indígena Wawi, no próximo domingo, caso a Justiça Eleitoral deixe de seguir os protocolos de proteção à covid-19 com testes e quarentena dos envolvidos nessa operação.

O povo Kisêdjê ou Khiset-se vive em território a leste do Parque Nacional do Xingu. Desde o início da pandemia, as quatro aldeias da região cumprem rigoroso isolamento social e protocolo para entrada e saída de pessoas e mercadorias. O objetivo é evitar contaminação entre os 400 indígenas da comunidade.

O indígena Winti Suya Khiset-se afirmou que ninguém entra nas quatro aldeias do território sem ficar ao menos sete dias de quarentena numa fazenda que serve de entreposto para mercadorias. Para ele, a eleição não pode quebrar a barreira para a doença.

"O cacique falou para mantermos o controle e estamos mantendo. Sabemos que a covid entrou em outras comunidades. Aqui, [o controle] evitou e muito. Desde março até agora, não tivemos nenhum infectado", diz Winti.

A campanha seguiu o mesmo protocolo. Candidatos e cabos eleitorais que queriam pedir voto nas aldeias levavam o material às lideranças, que ouviam as propostas e, após a quarentena, repassavam à aldeia.

Etnia K?sêdjê durante cerimônia - Rafael Govari/ISA - Rafael Govari/ISA

Sem ter um parâmetro claro sobre o protocolo por parte da Justiça Eleitoral e após algumas tentativas de diálogo não atendidas, o povo Kisêdjê enviou um ofício ao Cartório Eleitoral de Querência, com a assinatura de várias pessoas da comunidade, informando que as urnas não seriam instaladas nas aldeias do Wawi.

Na segunda, o cartório resolveu ouvir e atender ao pleito dos indígenas. De acordo com informações repassadas à reportagem pelos indígenas e pela assessoria de comunicação do TRE-MT (Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso), os mesários, as urnas e todo o material passarão por quarentena.

Ainda segundo o acordo, o Exército poderá atuar para a garantir a segurança da votação, mas distante das aldeias. Veículos da Justiça Eleitoral serão retidos no entreposto para evitar contato com a comunidade.

O UOL apurou que a mesma resistência por medo de contaminação da covid-19 foi comunicada por lideranças do povo Yudja, também conhecidos como Jurunas, do Território Indígena do Xingu. Os Yudjas manifestaram ao cartório eleitoral do município de Sinop, em Mato Grosso, que não querem urna nas aldeias.

O TRE-MT não respondeu se a medida exigida pelos Kisêdjê seria adotada em todas as seções eleitorais em aldeias indígenas.

No Amazonas, que tem a maior população indígena do país, a preocupação é com os povos que vivem Vale do Javari, no município de Atalaia do Norte, no norte do estado. Nesta região, fica a maior reserva de índios isolados do mundo. São 6.000 indígenas das etnias Kanamaris, Marubos, Matís, Mayorunas, Kulinas Panos, Tson wük Dyapas e Korubos.

Terão de seguir todo o protocolo necessário para evitar a contaminação. Se não fizer isso, o próprio cacique não vai deixar entrar ninguém. Vai seguir à risca o que manda a lei.
Yura Marubo, assessor especial da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari

De acordo com o diretor-geral do TRE-AM (Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas), Rui Melo, funcionários e policiais que atuarão nas aldeias desta região foram testados antes de saírem de Manaus, estão em quarentena em Atalaia do Norte e passarão por novos exames para acessarem as aldeias no domingo.

Covid entre os indígenas

De acordo com dados monitorados pela Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira), a covid-19 atingiu 133 povos indígenas na Amazônia Brasileira. O último boletim, divulgado no dia 6 de novembro, indica 27.999 infectados e 693 mortes.

Amazonas (6.962), Pará (5.600) e Mato Grosso (3.681) são os estados com os maiores números de casos confirmados da doença entre indígenas. Também lideram em óbitos.

FONTE: Notícias UOL

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