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VIDAS TRANSFORMADAS

Jovem de Porto Alegre do Norte que foi cega por 16 anos contará sua história em um livro autobiográfico

Após perder a visão, Jurema teve seus sonhos frustrados e precisou enfrentar o preconceito e superar as limitações.

30/06/2018 12h16 | Atualizada em 30/06/2018 12h33 459 acessos

Jovem de Porto Alegre do Norte que foi cega por 16 anos contará sua história em um livro autobiográfico

Reprodução

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Jurema dos Santos Reis, 31, viveu 16 anos na completa escuridão e agora, está correndo atrás do tempo perdido e tentando concretizar sonhos que lhe pareciam inalcançáveis. O livro que ela escreve sobre a vida dela já tem 6 páginas, escritas com canetas de cores variadas e desenhos feitos a mão. “Eu não vou deixar dinheiro, mas quero deixar minha experiência de vida. Não é fácil para ninguém viver sendo negra e cega. As pessoas não têm paciência e nem estão disponíveis para ajudar quem é dependente”.

A jovem fez a cirurgia de catarata no dia 27 de abril do ano passado, data que Jurema tem na ponta da língua. O procedimento aconteceu durante a Caravana da Transformação de Porto Alegre do Norte, região do Araguaia, conhecida há alguns anos como Vale dos Esquecidos. Na ocasião, ela chegou ao local depois de ser desenganada pelos médicos em Barra do Garças e Goiânia. “Eu não tinha mais medo do risco porque não tinha nada a perder”.

Quando estava na quinta série, Jurema comunicou a professora que iria largar a escola porque não tinha mais condições de acompanhar as aulas. Sensibilizada com a situação, a profissional pagou a primeira consulta da aluna em um oftalmologista e o diagnóstico foi desanimador. “O médico fez muitos exames e disse que eu tinha catarata congênita e não havia cura. Eu já estava enxergando menos de 5%. A partir daí, passei a ficar apenas em casa e depender das pessoas para ir aos lugares. Não tinha dinheiro para buscar outro médico e minha professora ganhava pouco e não podia mais ajudar”.

Filha de pescadores, a então estudante também não tinha condições financeiras de custear um tratamento inovador ou em outro lugar. Então, ela começou a viajar constantemente para Goiânia(GO) em busca de atendimento com especialistas pelos Sistema Único de Saúde (SUS). “Eu ia de carona e até mesmo de ambulância, quando sobrava uma vaguinha. Cheguei a ir no dia de Natal, mas nunca tive uma resposta animadora. Eles perguntavam se eu via números e depois diziam que não tinha solução. Era um perda de tempo”.

Desde a primeira vez que foi ao médico, Jurema e a mãe dela, Irani Alves dos Santos, 52, questionaram a possibilidade de se fazer a cirurgia, mas os médicos falavam que existiam duas possibilidades: melhorar em um por cento a capacidade visual ou perder o globo ocular de vez.

Irani conta que não autorizou a cirurgia porque a perda total do globo ocular podia prejudicar ainda mais a vida da filha, que já sofria uma série de preconceitos. “Não queria que ela ficasse com dois buracos no meio do rosto. Ela enfrentava comentários e muitas situações difíceis. Até eu falava coisas que me arrependia depois. Uma vez, eu estava andando com ela na rua em direção ao banco e no meio do caminho, vi alguma coisa que me chamou atenção. Na mesma hora, eu falei: - olha aquilo Jurema. Foi instantâneo e doeu mais em mim que nela”.

SONHOS ADIADOS – Jurema teve vários sonhos frustrados por causa da cegueira. Entre eles, o de ser de ser professora, andar de bicicleta e ser mãe. Ela chegou a engravidar, mas perdeu o filho no terceiro mês de gestação e complicações levaram os médicos a retirar o útero dela. “Eu sofri muito porque o que eu mais queria na vida era ter uma criança. Mas duro foi estar sofrendo e ouvir as pessoas dizendo que por causa da minha deficiência, eu jamais seria capaz de criar um filho mesmo”.

Na escola, o acesso ficou praticamente bloqueado e a única alternativa era contratar um professor particular e a família não tinha condições de arcar com as despesas. “Eu tentava manter as letras na minha mente, mas com o tempo, elas sumiram e hoje estou reaprendendo tudo”.

Cada vez mais, a jovem foi se isolando e quando a visão lhe faltou definitivamente, aos 15 anos, ela passou a desenvolver outros sentidos. O primeiro deles foi o tato, porque precisava tocar as paredes e os pontos da casa para fazer as atividades domésticas. Já quando precisa sair, costumava ir apenas ao banco e sempre acompanhada.

A única pessoa que estava sempre disponível para andar com ela, era Cássia. Uma vizinha, que segundo Jurema, é muito bonita. A jovem afirma que sentia toda beleza de Cássia mesmo sem poder vê-la e quando mudou de Barra do Garças para Porto Alegre do Norte, onde mora atualmente, não perdeu o contato. Frequentemente elas se falavam pelo telefone e Cássia sempre mandava áudios pelo whatsapp e os familiares dela ajudavam a na hora de ouvir.

A CIRURGIA – Quando Jurema foi fazer a consulta com médico na Caravana da Transformação, logo foi informada que a situação podia ser revertida com cirurgia, o que trouxe esperança para ela e preocupação para os pais, porque os profissionais anteriores tinham apresentado prognósticos desfavoráveis. “Mesmo assim eu fiz, eu não podia ficar pior do que estava”.

Assim que saiu da sala de operações, ela conseguiu identificar fisionomias, a mãe e os parentes que lá estavam. Dois dias depois, foi operado o segundo olho e a visão retornou quase que integralmente. Atualmente, Jurema usa óculos de grau leve para ler. “Eu comecei a ver que alguns lugares eram diferentes do que eu imaginava. Mas a coisa mais bonita que eu vi foi a água quando cai do chuveiro. Ela é brilhosa e tem um reflexo. Eu fiquei admirada. Hoje, eu sei que nunca enxerguei direito, mesmo quando era criança”.

Aos poucos, ela está retomando seu caminho e hoje, após um ano do procedimento, ela já retornou à escola e como uma adolescente, mostra orgulhosa o estojo escolar, estampado com personagens infantis e repleto de lápis, canetas, canetinhas e demais apetrechos.

Em um caderno de modelo universitário, ela cola desenhos, pintados por ela, e escreve seu futuro livro, bem como poemas. “Eu sou deste jeito alegre, mas sou muito romântica também. No futuro, estarão me entrevistando para falar do meu trabalho como escritora. Por que não?”.

FONTE: Caroline Rodrigues e José Medeiros | Gcom-MT

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