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BRASIL

Presidente da Funai diz que vai processar indígena que integrou comitiva de Bolsonaro na ONU

Marcelo Augusto Xavier da Silva considera que foi caluniado por Ysani Kalapalo.

16/01/2020 09h53 | Atualizada em 30/11/-0001 00h00

Presidente da Funai diz que vai processar indígena que integrou comitiva de Bolsonaro na ONU

Reprodução

O presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Marcelo Augusto Xavier da Silva, diz que vai entrar na Justiça com um processo contra a indígena levada pelo presidente Jair Bolsonaro à abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em setembro do ano passado. A youtuber Ysani Kalapalo fez parte da comitiva de Bolsonaro em Nova York e foi apresentada pelo presidente, em seu discurso de abertura na assembleia, como uma líder e um contraponto à liderança indígena brasileira mais conhecida no cenário internacional, o cacique Raoni Metuktire. Agora, o presidente da Funai promete acionar a jovem na Justiça em razão de "ataques" à sua administração.

A confusão entre o presidente da Funai e a indígena a favor de Bolsonaro foi exposta pela própria youtuber, em um vídeo publicado ontem. No vídeo, ela expôs mensagens enviadas por Xavier via Whatsapp, com ameaças de interpelação judicial. Por meio da assessoria de imprensa, a Funai confirmou que as mensagens são verdadeiras e que o presidente do órgão vai ingressar com uma ação na Justiça contra a indígena, por considerar que é caluniado pela jovem que fez parte da comitiva presidencial em Nova York.

As mensagens enviadas por Xavier a Ysani citam uma interpelação judicial contra ela e contra o advogado Ubiratan de Souza Maia, ligado a grupos que defendem a liberação de mineração e de arrendamentos agropecuários em terras indígenas. O presidente da Funai diz não aceitar "ofensas ao meu nome" e que reagirá aos ataques à sua administração.

"O presidente da Funai quer me processar, quer calar minha boca", diz a youtuber no vídeo publicado. "Acompanho o trabalho da Funai desde 2009, indo a Brasília. Há muito tempo venho questionando as coisas que rolam na Funai. Faço críticas construtivas, dizendo o que ele deveria fazer em prol dos povos indígenas".

Segundo Ysani, o principal incômodo do presidente da Funai foi com uma cobrança sobre a ausência dele em conflito envolvendo produtores rurais e indígenas guarani-kaiowá, em Mato Grosso do Sul. "Fiz uma ironia com o presidente da Funai. 'Cadê o presidente da Funai nessas horas? Ele não deveria estar trabalhando?'", afirmou no vídeo.

Ysani reforça sua linha bolsonarista no vídeo, reproduzindo um discurso recorrente do presidente: "O atual presidente da Funai não está exercendo para aquilo que ele foi posto, que é combater as ONGs da Amazônia que exploram os índios. Ainda não estou vendo os resultados dele. Como forma de querer calar minha boca, literalmente me intimidar, diz que vai entrar com interpelação judicial para que eu me cale. Sinto muito lhe dizer agora, mas não vai."

Ysani não tem respaldo em sua comunidade. Na ocasião do anúncio de que integraria a comitiva de Bolsonaro na ONU, caciques de 14 povos indígenas do território do Xingu, em Mato Grosso, e a Associação Terra Indígena Xingu protestaram contra o convite. Ela não conta com apoio nem mesmo do cacique dos kalapalo.

As lideranças divulgaram um manifesto contra a representação de Ysani na comitiva presidencial na ONU. Intitulado "carta de repúdio", o documento diz que o convite a Ysani "demonstra mais uma vez o desrespeito com os povos e lideranças indígenas renomados do Xingu". A jovem embarcou a Nova York junto com a comitiva do presidente.

Já o presidente da Funai é um delegado da Polícia Federal (PF) que tem um histórico de conexão com os ruralistas em Brasília. Ele atuou na assessoria a parlamentares ruralistas na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Funai, que investigou em 2017 a atuação do órgão e também do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

A CPI foi uma iniciativa da bancada ruralista. Depois de assessorar os ruralistas, o delegado foi nomeado ouvidor da Funai. Foi demitido em abril de 2018, após ter solicitado que policiais investigassem "invasões" de indígenas em áreas que reivindicam em Mato Grosso do Sul. Xavier assumiu a Funai em julho de 2019.

FONTE: O Globo/Vinicius Sassine

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