ECONOMIA

Delações da JBS reforçam crise da pecuária; Araguaia vive estagnação

Região do Vale do Araguaia depende da empresa e crise gerou desemprego.

19/06/2017 10h17 332 acessos

Delações da JBS reforçam crise da pecuária; Araguaia vive estagnação

Werther Santana/Estadão

Reportagem especial de O Estado de São Paulo retrata a repercussão das delações do grupo JBS na Operação Lava Jato. Na região do Araguaia, o cenário é de desânimo.

Depois de alguns minutos de conversa, Altair Alves Salles, de 33 anos, mostra as mãos machucadas, grossas e amarelas de calos. “Faz cinco meses que estou procurando emprego”, afirma ele. “Mas só consigo trabalhar por diária, como servente de pedreiro.” Com um casal de filhos e muitas contas para pagar, naquele mesmo dia ele tinha trabalhado numa obra das 7h às 18h, em troca de R$ 70.

Morador de um assentamento distante, já era noite quando ele encontrou a reportagem do Estado num posto de gasolina, na entrada de Barra do Garças (MT), a maior cidade do polo pecuarista do Vale do Araguaia, região com um rebanho de 6 milhões de cabeças de gado. Vaqueiro e capataz durante toda sua vida, ele saíra de lá havia dois anos, quando uma separação o fez ir atrás de um sonho. “Nunca havia ligado um computador, nem sabia como usar um celular”, diz, com um sorriso aberto. Mudou-se para Goiânia atrás de cursos, trabalhou como frentista e garçom. Mas a violência da cidade grande o fez sentir saudades.

Na volta, a vida era outra. “Antes, se você saísse de uma fazenda, em 15 dias arrumava outro emprego”, afirma, agora com um nó na voz. “Hoje, o povo não quer mais mexer com nada: reclamam que a ração está cara, que o insumo subiu, que o gado não vale nada e abriram mão das vagas…”. Salles é a ponta mais fraca numa cadeia que vive uma sucessão de crises. Por causa delas, uma das únicas áreas que tem garantido o crescimento menos ruim da economia nos últimos anos também começa a sofrer: a do agronegócio.

No Mato Grosso, com um rebanho com 30,2 milhões de cabeças (quase 15% do gado brasileiro), a série de infortúnios que atingiu o setor nos últimos dois anos foi um pouco mais forte. À crise econômica e ao desemprego, se somou uma seca histórica.

Com custos em alta também pela volta do Funrural, a operação Carne Fraca desestabilizou ainda mais o mercado. Dois meses depois, a delação dos diretores da JBS mexeu com prazos e liquidez dos pagamentos e puxou ainda mais para baixo o preço pago ao produtor. Detalhe: sem que houvesse o mesmo reflexo no valor cobrado do consumidor final.

No Vale do Araguaia, área em que 800 criadores se espalham por 34 municípios, o impacto foi ainda maior. Até a JBS se tornar a maior empresa de proteína do mundo,pelo menos 15 frigoríficos de diferentes tamanhos compravam o gado dos criadores. “Hoje, se pegar a BR-158, só tem quatro e todos JBS”, diz o pecuarista Vasco Mil-Homens, da Fazenda Marupiara. “Por isso que, quando a JBS deixou de comprar à vista, pensamos: ‘tá quebrada’.”

O cenário na região, dizem fazendeiros e especialistas, é uma aula do que acontece quando se alimenta um monopólio. “Houve um ano em que a JBS arrendou dois frigoríficos e, imediatamente, abaixou em R$ 4 o valor da arroba”, diz Mil-Homens. “Fizemos as contas: com dois dias da diferença, a JBS pagava os arrendamentos.”

Efeitos patrocinados por uma política de Estado, com financiamento público via BNDES, para a criação dos campeões nacionais. A JBS é o maior expoente desse movimento. “O Cade (o órgão antitruste) poderia ter agido na aprovação das aquisições, obrigando a JBS a vender algumas unidades”, diz Sérgio Lazzarini, professor do Insper. “Só que o governo tinha um viés desenvolvimentista e passaram por cima do que estava acontecendo.”

Segundo ele e outros especialistas, a pecuária se desenvolvia em velocidade, ganhava produtividade, melhoria genética e tecnologia, sozinha. Chegaria ao tamanho que atingiu sem qualquer campeão nacional.

Gourmet do Brasil

“Quando a JBS se tornou mundial, achamos que transformaria a carne de nelore num produto gourmet do Brasil para o mundo”, diz Mil-Homens. “O que fizeram, porém, foi pisar na garganta do pecuarista, sem repassar a diferença para o consumidor”.

O resultado da redução de margens é sentido em todas as cidades do Vale do Araguaia. “Éramos 36 funcionários e hoje somos 22”, diz Rones de Paula, administrador da Fazenda Roncador. “Os investimentos praticamente zeraram: é só em fio de arame, para a cerca não cair.”

Essa nova realidade, ele afirma, interferiu nas lojas de material de construção, nas madeireiras, nas casas de produto veterinário, nos restaurantes e em todo comércio das cidades. “As lojas estão às moscas”, diz. “Quando é preciso um produto um pouco mais caro, tem de encomendar porque não há estoque.”

Os exemplos se multiplicam em todas as áreas. José Carlos Biersdorf, o Nico, da NX Leilões, de Nova Xavantina, fazia um leilão de gado por semana. Em 2017, fez três. “De Barra do Garças a Canarana, havia 13 casas de leilões”, diz. “Sobraram duas.”

Não há alternativa para vender os bois. Quem os engordava em confinamentos e boitéis, os hotéis para gado, amarga perdas e enxuga despesas como pode. “Se antes a folha de pagamento custava 100 bezerros, hoje preciso de 140”, diz Goulart. “O nome disso é destruição de riqueza.”

Pouco antes da delação, a fábrica da JBS em Barra do Garças, cidade onde os irmãos Batista viveram no início dos anos 2000, anunciava a abertura de um terceiro turno, com a contratação de 300 trabalhadores. A prefeitura começou o cadastramento, mas o plano foi suspenso.

Procurada, a JBS disse por e-mail que não houve mudança na unidade e tem hoje 35% de capacidade ociosa. As operações continuam em ritmo normal, sua situação financeira é robusta e ela preza pela parceria com seus fornecedores.

Em relação à reportagem "Delações da JBS reforçam crise da pecuária", a JBS esclarece que  tem trabalhado no Mato Grosso em linha com as demandas de mercado. Considerando seus concorrentes na região, a avaliação de abate dos útimos 12 meses no estado aponta ociosidade tanto nas plantas SIF, como SIE e SIM, o que demonstra que o cenário atinge não só os abatedouros com SIF, como é o caso da JBS, mas também os com inspeção estadual e municipal. 

Leia íntegra da nota enviada pela JBS:

O dado comprova que a capacidade ociosa instalada hoje no estado seria capaz de absorver toda a disponibilidade de produção da região, o que não vem ocorrendo por questões macroeconômicas que atingiram todo o setor.

É importante ressaltar também que o valor do boi gordo está diretamente relacionado ao ciclo da pecuária, em que a maior oferta de gado para abate com a queda do consumo do mercado interno atrelado à economia retraída influenciam diretamente no preço da arroba.

 A JBS também acrescenta que a padronização da política dos fornecedores de gado em 30 dias aconteceu há quase dois meses -- 97% das compras já eram realizadas dessa forma. A padronização, portanto, não tem relação com qualquer fato apontado pela reportagem.

A Companhia, que é uma das maiores empregadoras de Mato Grosso, continua trabalhando em ritmo normal, dentro do plano de negócios. A empresa tem uma situação financeira robusta e preza pela manutenção de sua estreita relação de parceria com seus fornecedores.

Pecuaristas do Mato Grosso trabalham em soluções de emergência, enquanto as definitivas para seus problemas não se concretizam

Os pecuaristas do Mato Grosso trabalham em soluções de emergência, enquanto as definitivas para seus problemas não se concretizam. A primeira delas é a negociação da redução do ICMS e da pauta, como é chamado o valor estabelecido para as mercadorias, pelo governo, para a cobrança de impostos. Se as alíquotas baixarem, frigoríficos de outras regiões do País, sobretudo de São Paulo, poderão ser uma saída para o gado parado no pasto, na mesma época em que o período de seca encarece sua criação.

“Percebemos que o governo do Estado tem se mostrado sensível à nossa necessidade de desafogar a produção”, diz Marco Junqueira, administrador da Fazenda Carpa Serrana, uma das maiores do Vale do Araguaia.

Região de criadores de gado mais dependentes da JBS, o Vale do Araguaia (MT), tem sofrido fortemente com a crise da empresa Foto: Werther Santana/Estadão

Uma segunda alternativa é negociar a abertura dos frigoríficos fechados nos últimos anos. Na quarta-feira, João Batista Vaz, prefeito de Nova Xavantina e alguns empresários organizavam uma ida a Brasília para pressionar pela retomada na produção de uma unidade da Marfrig, parada há três anos.

“Numa cidade pequena como a nossa, o frigorífico fechado quebrou uma série de outros negócios: do dono da concessionária, que havia financiado 150 motos para os funcionários, às transportadoras e várias lojas”, diz ele.

No longo prazo, há possibilidades como o cooperativismo e o associativismo, para os quais os empresários pretendem se organizar. Para Sérgio Lazzarini, do Insper, uma boa alternativa, comum em outras áreas do agronegócio.

“Do mesmo jeito que fez com os grandes, o BNDES poderia financiar pequenos e médios, para aumentar a concorrência e as alternativas”, diz Junqueira. Lazzarini discorda e afirma que o momento é de deixar o mercado se ajustar.

Maria Ester Fava, a Téia, da Fazenda Estrela do Sul e da Acrimat, a associação dos criadores do Estado, é uma das que está indo contra à maré. Investiu num pequeno confinamento, por se recusa a vender pelo preço atual, oferecido pela JBS. Dona de uma madeireira que vende eucalipto tratado, diz que ficou feliz quando as vendas deste mês empataram com as do mesmo período do ano passado. Deveriam, porém, ter crescido. Também está investindo para abrir uma empresa de peças industriais em inox: “Resolvi diversificar para ficar menos dependente.”

DEPOIMENTOS

Marco Junqueira, administrador

“Nossa atividade tem ciclos de baixa e temos planejamento para enfrentá-los. Na Carpa Serrana, começamos a cortar custos antes da Copa do Mundo, quando o Brasil ainda estava no primeiro mundo. Sabíamos que o crescimento era artificial e a economia não se sustentaria naquele patamar. Mas enfrentar tantas crises seguidas contaminou a atividade como um todo.”

Téia Fava, ​pecuarista

“O pecuarista empobreceu. Nós compramos e investimos na criação de um animal que custava muito mais caro do que hoje. Aprimoramos a genética, a qualidade da carne, a produtividade, a escala e de pouco valeu. Hoje, nem uma genética de primeira faz diferença: o boi vale apenas o que pesa. Se um rebanho de mil cabeças valesse hipoteticamente R$ 1,2 milhão, hoje ele não passaria de R$ 1 milhão.”

Altair Alves Salles, vaqueiro e capataz

“Até dois anos atrás, se você saísse de uma fazenda, em 15 dias já estava contratado em outra. Estou há cinco meses procurando emprego e só consigo trabalhar por diárias, como servente de pedreiro. Tenho dois filhos, contas que não param de chegar e pego o que aparece. Nas fazendas, o povo reclama que a ração está cara, que o insumo subiu, que o gado não vale nada e tiveram de abrir mão das vagas. 

Vasco Mil-Homens, pecuarista

“Quando a JBS se tornou mundial, achamos que seria bom e, como brasileiros, seríamos prestigiados. Ela transformaria a carne de nelore num produto gourmet do Brasil para o mundo. Aconteceu o contrário: priorizaram quantidade e nossa carne ficou ainda mais barata. Pisaram na garganta do pecuarista, sem repassar a diferença de preço ao consumidor.”

FONTE: ESTADÃO

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