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TERRA INDÍGENA

Xavantes denunciam impactos do despejo de venenos e temem nova invasão

Há indígenas que ficam com febre e tosse. Isso afeta muito a nossa saúde”, relata Cosmerité Xavante Marãiwatsédé.

09/02/2019 11h12 | Atualizada em 30/11/-0001 00h00

Xavantes denunciam impactos do despejo de venenos e temem nova invasão

Ilustrativa

Moradores da Terra Indígena Marãiwatsédé, em Alto Boa Vista (a 1.085 km da Capital), dos xavantes, relatam que sofrem com o uso de agrotóxicos em produções rurais da região. As crianças das aldeias são as mais afetadas. Outro problema enfrentado pelos indígenas da região é o medo de perder suas terras, após recentes declarações de políticos mato-grossenses.

Em 2012, teve início a desintrusão da terra Marãiwatsédé, na qual produtores rurais que viviam na Suiá-Missú foram retirados da fazenda. Os indígenas haviam sido expulsos da área em 1966, quando foram levados para o Sul do Estado e somente retornaram ao lugar após intensa luta, de mais de duas décadas, pela propriedade, com o auxílio da Fundação Nacional do Índio (Funai).

Apesar do retorno à região, os xavantes que vivem na Terra Indígena Marãiwatsédé – que possui 165 mil hectares – relatam que têm enfrentado problemas. Uma das maiores dificuldades são as plantações de soja das fazendas vizinhas. Isso porque eles alegam que o agrotóxico utilizado por produtores rurais afetam a vida da população indígena.

“Muitas crianças ficam doentes. Há indígenas que ficam com febre e tosse. Isso afeta muito a nossa saúde”, relata Cosmerité Xavante Marãiwatsédé - veja vídeo.

Cacique da aldeia Madzabdze, uma das sete localizadas na Marãiwatsédé, Carolina Rewaptu relata que os agrotóxicos afetam frutas e animais das terras localizadas na região. “As frutas ficam envenenadas e os animais acabam não vindo na nossa região. Quando aparecem, eles muitos estão contaminados pelo agrotóxico”, lamenta.

 Cacica Carolina“Quem come alguma fruta ou animal envenenado com o agrotóxico, passa mal com diarréia ou vômito”, diz ao .

Os agrotóxicos são jogados por aviões das fazendas localizadas na região. Conforme os indígenas, o defensivo agrícola é lançado a quilômetros de distância, porém, é levado pelo vento até Marãiwatsédé. “Deveria haver maior controle sobre essa questão”, diz Cosmerité.

Os defensivos costumam ser lançados nos primeiros meses do ano, período de plantio. “Antes, os aviões chegavam a sobrevoar nossa aldeia e também lançavam agrotóxico em áreas que não tinha plantação”, comenta o xavante.

No ano passado, indígenas denunciaram o caso à Polícia Federal de Barra do Garças. A situação foi alvo de investigações. O Ministério Público Federal (MPF) instaurou procedimento para apurar o caso. Indígenas prestaram depoimentos sobre o caso.

A reportagem procurou o MPF para entender como estão as apurações sobre o caso. A entidade, porém, não respondeu até a conclusão deste texto.

Neste ano, após a denúncia, segundo Cosmerité, os aviões deixaram de sobrevoar as aldeias. No entanto, ele afirma que o agrotóxico continua sendo sentido pelos indígenas e prejudicando a saúde deles.

Nenhum produtor rural da região foi localizado até a conclusão desta reportagem. Para Cosmerité, os ruralistas da região deveriam ser mais conscientes sobre os efeitos que os agrotóxicos podem causar aos moradores do entorno das propriedades.

“Na minha percepção, é uma situação muito triste. Nessas fazendas estão grandes produtores de soja. Eles pensam na questão financeira, do capital. Nós não temos nada a ver com isso”, assevera o indígena.

Incerteza sobre o futuro

Em Marãiwatsédé, após a retomada da terra, as aldeias foram divididas de uma forma que pudesse assegurar a permanências dos xavantes na região e evitar possíveis invasões. “Construímos as nossas aldeias nos pontos principais. A primeira fica no canto da nossa terra, outra no fundo e assim em diante. Sempre em áreas importantes. Construímos com estratégia para impedir que intrusos cheguem”, declara Cosmerité ao .

Desde que retomaram a região rural em Alto Boa Vista, os indígenas tiveram diversos conflitos com produtores da região, principalmente com aqueles que reivindicavam a propriedade da terra. Porém, nos últimos anos, a cacique Carolina comenta que os imbróglios cessaram e eles viviam tranquilamente na região, sem temer perder a propriedade.

“Nosso maior problema era a falta de assistência do município, que não nos ajuda de nenhuma forma, porque dizem que nunca têm recursos”, lamenta a cacique Carolina. A Prefeitura de Alto Boa Vista não foi localizada para comentar o caso.

Carolina conta que um dos maiores problemas é a situação das estradas da região que, segundo a cacique, são precárias. “Isso nos prejudica em vários setores, como na saúde, porque temos dificuldade para ter acesso a outros lugares”.

A tranquilidade de outrora, referente a possíveis ataques, deu lugar ao medo entre os moradores de Marãiwatsédé. isso porque eles afirmam que os deputados federais José Medeiros (Pode) e Nelson Barbudo (PSL) incitaram invasões ao local durante declarações recentes.

"Junto com a minha querida Selma Arruda, a nossa senadora já me autorizou a falar em nome dela, nós lutaremos e temos certeza, como Jair Bolsonaro venceu as eleições, nós vencemos também, e nós venceremos a causa do Posto da Mata, porque isso foi um crime que cometeram contra aqueles que produziam, geravam emprego e renda", disse Nelson Barbudo, em vídeo publicado nas redes sociais. Posto da Mata era o modo como era conhecido a região que hoje abriga as aldeias.

Medeiros também fez declarações que foram encaradas pela Funai como incitação ao ódio contra indígenas. "Nós não queremos tirar terras dos indígenas. Que sejam alocados em outro local, mas que as pessoas que ali já estavam, que compraram suas terras, possam ter segurança jurídica", afirmou.

Os dois negam que as declarações sejam uma forma de incitar o ódio e motivar invasões à Terra Indígena Marãiwatsédé. A Funai denunciou o caso ao Ministério Público Federal, acusando os dois de influenciar possíveis ataques. O caso continua sendo investigado.

cosmerite

 “Estávamos vivendo uma situação tranquila. Mas agora, com esse novo governo (em referência ao presidente Jair Bolsonaro), começou esse movimento político. Muitas pessoas podem aproveitar essas declarações dos deputados para invadir nossas terras”, diz Cosmerité.

“Estamos sofrendo ameaças desde nossa retomada. Tudo estava tranquilo nos últimos períodos, mas agora estamos, novamente, vulneráveis. Este ano não recebemos ameaças, mas tivemos as declarações de Medeiros e Barbudo, que podem nos prejudicar”, acrescenta.

FONTE: Rd News/Vinícius Lemos

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