PUBLICIDADE
COMBATE

Paratleta de Santana do Araguaia encara 45 horas de viagem até o Rio, supera cinco rivais e vence torneio de jiu-jítsu

Wollace Aguiar embarca em Santana do Araguaia, no Pará, só com a passagem de ida para disputar o Rio Challenge.

27/10/2020 09h12 | Atualizada em 27/10/2020 09h25

Paratleta de Santana do Araguaia encara 45 horas de viagem até o Rio, supera cinco rivais e vence torneio de jiu-jítsu

Reprodução

As cidades de Santana do Araguaia, ao sul do Pará, e do Rio de Janeiro estão separadas por uma linha reta de pouco mais de 1.700 km no mapa. De ônibus, o caminho pode ser feito numa viagem de cerca de 45 horas. Parece muito? O paratleta de jiu-jítsu Wollace Aguiar encarou o roteiro. No último dia 14, o paraense comprou uma passagem só de ida para a capital fluminense e, no dia seguinte, embarcou rumo à disputa do Rio Challenge, campeonato organizado pela Federação Sul-Americana de Jiu-Jíitsu, que ocorreu no domingo (18). Wollace ignorou o cansaço acumulado pelo trajeto e foi campeão em sua classe funcional, após duas lutas, e na categoria Absoluto de Membros Superiores, com três disputas.

— Foi uma experiência extraordinária. Não teve uma luta em que eu pudesse falar “essa foi mais fácil que a outra”. Mas é uma experiência que vou poder levar para o resto da minha vida e compartilhar com o pessoal da minha equipe e meus amigos. Não é todo dia que isso acontece. É maravilhoso ser campeão em duas modalidades, tanto na categoria como no absoluto. Para mim foi algo único, porque eu nunca tinha conseguido ser campeão de duas modalidades num único campeonato. Foi uma experiência extraordinária. É um sentimento tão grande, tão maravilhoso, que é difícil até de expressar. Me senti muito realizado e determinado pelo que eu fiz e pelo resultado que eu tive - declarou o faixa-roxa, que sofreu um acidente de moto aos 17 anos e perdeu os movimentos do braço direito, ao Combate.com.

Wollace Aguiar sobe no lugar mais alto do pódio no Rio Challenge — Foto: Flashsports

Wollace, de 31 anos, é praticante de jiu-jítsu desde 2016. Em seu primeiro contato com a modalidade, sabia que não largaria mais o esporte. A paixão sem limites o faz cruzar as divisas dos estados brasileiros para se lançar em competições. Esta foi a segunda vez que viajou para o Rio de Janeiro com o intuito de buscar o topo do pódio. Em 2019, "aturou" 64h de ônibus para deixar Santana do Araguaia rumo a Florianópolis.

— Costumo falar que o tempo às vezes nos ajuda, mas também pode atrapalhar. Neste caso (última viagem para o Rio), acredito que o tempo de viagem me ajudou. Pude refletir um pouco mais, trabalhar o psicológico, diminuir aquela tensão do campeonato. Procuro sempre focar nos meus objetivos e estar com a mente limpa. Esse tempo de viagem às vezes nos deixa nervoso, mas eu saí da minha cidade bem focado no campeonato e no que eu tinha de fazer. Mas, para falar a verdade, cheguei nesse campeonato muito cansado e com dores nas costas. Tive que tomar alguns remédios para aliviar um pouco. O importante é que tive um bom resultado - detalhou o lutador, que precisou suportar uma lesão no músculo posterior da coxa, sofrida em seu primeiro confronto.

Wollace Aguiar em mais uma missão de ônibus pelo Brasil — Foto: Arquivo Pessoal

A jornada na estrada é, na realidade, uma parte tranquila para Wollace. Isto porque seu primeiro desafio foi de conseguir o suporte financeiro para pagar as passagens de ida e volta para o torneio. O atleta tem como único rendimento sua aposentadoria por invalidez, e depende do apoio de pequenos empresários de Santana do Araguaia para participar de competições. Por isso, embarcou para o Rio de Janeiro apenas com o bilhete de ida, enquanto seu professor ainda arrecadava o necessário para a volta, comprada quando ele já estava na Cidade Maravilhosa.

— O pessoal do projeto Jiu-jítsu Evangelístico Jovens de Cristo correu atrás para que eu pudesse disputar o campeonato. Um ajudando o outro para que eu chegasse no Rio de Janeiro. Viajei só com a minha passagem de ida porque a gente não teve tanto apoio assim dos empresários na minha cidade e não deu para tirar as duas antes. Meu professor correu atrás e conseguiu me mandar o valor da volta. A preocupação maior no início era eu poder chegar no campeonato. Acho que meu professor tirou até do bolso dele para que eu pudesse voltar para casa. Quando cheguei no Rio, fiquei na casa do meu primo, porque se tivesse que pagar hotel seria ainda mais difícil competir — explica Wollace, revelando os truques para driblar as incontáveis horas dentro do ônibus.

— A viagem foi boa, tranquila, apesar de demorar tanto. Agora as paradas… acho que fiz umas 15, porque são muitas de lá para cá. O que eu sempre faço para passar o tempo é ler. Leio um pouco da Bíblia, principalmente o capítulo do Salmo 91. Quando não estou lendo, assisto a alguns vídeos das minhas lutas para ver onde posso melhorar, se tem algo a corrigir para na hora da luta não fazer nada de errado. Procuro me estudar e estudar o oponente para saber a melhor forma de dar início ao combate.

Na volta para casa, a sensação foi de missão cumprida — a medalha e o cinturão conquistados no evento foram a recompensa para tanta determinação. O sonho maior é disputar o Mundial de Jiu-Jítsu e, a longo prazo, abrir uma academia para repassar os ensinamentos que carrega do esporte e da vida. Afinal, para falar de superação e de força de vontade, Wollace Aguiar tem a bagagem de um faixa-preta.

— Acredito que quando se faz uma coisa com amor não tem nenhuma distância no mundo que vá te impedir — concluiu.

Wollace Aguiar durante disputa de parajiu-jítsu no Rio Challenge — Foto: Arquivo Pessoal

Veja o Vídeo:

FONTE: Globo Esporte/Pedro Felipe Machado

Comente, sua opinião é Importante!

PUBLICIDADE